Durante a gravidez não li nem procurei absolutamente nada sobre o depois. Sabia em pormenor o desenvolvimento do ouvido às 22 semanas e que as unhas existem a partir das 10, mas não procurei nadinha sobre o depois. Assumi sempre que conseguiríamos gerir as coisas sem manual de instruções e que as ideias que eu tinha sobre a maternidade se iriam concretizar [agora, aquele olhar do Eu-Presente para o Eu-Passado - you crazy woman... You know nothing, John Snow... !]. O que se calhar até poderia ser verdade caso eu sentisse uma maior segurança naquilo que estava a fazer, não [me] pusesse em causa em todas as situações, dormisse um pouco melhor, tivesse mais pares de mãos a partilhar os dias comigo ou, acima de tudo, confiasse na minha própria cabeça. Mas sendo que nenhuma destas condições se reuniu, o caso foi outro.
Começaram as grandes questões: porque é que ela chora quando não está ao colo? Porque é que nuns dias dorme 2 horas seguidas à tarde e noutros nem 20 minutos? Será que a devo acordar para lhe dar mama quando ela está a dormir há quase 4h durante o dia? Porque é que ela franze o sobrolho quando olha para mim? E, regra geral, associada a cada uma das grandes questões, a grandessíssima [isto teria que ser lido com o acento da minha professora da quarta classe] questão: o que é que eu estou a fazer mal?
Posto isto, vai de procurar informação. E como eu sou dada a cultivar pequenas obsessões, a procurá-la de forma exaustiva. Há mesmo muita gente que se dedica a escrever e pensar sobre estas coisas durante muito tempo das suas vidas: livros, fóruns, blogs, grupos no facebook, revistas. Centenas. Uns mais profissionais, outros profundamente amadores. Foi pior a emenda que o soneto. Porque obviamente, como em tudo o que não tem uma resposta única, há muito mais do que uma opinião. Ao ler um, acho que deve ser assim, ao ler outro, questiono o que achei há 5 minutos atrás. Um inferno permanente, que não dá descanso à minha cabecinha obsessiva e que em situações de stress procura sempre uma lógica única. Claro que faça eu o que faça, há sempre uma teoria em contrário. Há sempre alguém que faz diferente. Eu própria, passando em revista o que fiz, acho que poderia sempre ter feito de outra maneira, melhor. O que não me impediu de subscrever uma data destes grupos, de seguir alguns blogs e de ler bem mais do que uma vez os livros que me tinham dado, não fosse estar a escapar-me algum pormenor ["o que eu acabei de fazer/pensar é validado por alguém?! Se for, então está ok..."].
Estratégia dois: falar com pessoas que tiveram bebés há pouco tempo. Fraquinha. Todas a fazer melhor que eu. Todas a dar mais aos bebés delas. Todas com mais certezas. Todas a achar tudo maravilhoso ["sim, claro que é cansativo, mas é o melhor do mundo"]. A juntar-se ao inferno anterior aqui um ventinho para ajudar a propagar o fogo.
E eu sempre no meio.
Não seria capaz de deixar a minha filha a chorar à noite sozinha; mas acredito que não devo ir sempre que ela resmunga um bocadinho.
Sou defensora da amamentação a 200% mas não acho que dar mama seja a solução para todos os choros.
Acho que é preciso criar condições de segurança e tranquilidade na hora de ir para a cama, e de uma dose de mimo extra; mas também acho que, regra geral, os filhos devem adormecer sozinhos.
Acho que às vezes durante a noite os bebés precisam de miminho, mas acredito piamente que não devem dormir na cama dos pais mas sim na sua caminha.
Acho que os filhos devem ter poder de escolha em relação à quantidade que comem, sem os obrigar a comer, mas também acho que devem participar nas refeições dos pais e comer o que existe.
Acho que os filhos devem poder comer independentemente como querem, com as mãos ou os talheres, mas não acho que possam comer sempre que lhes apetece (exetuando-se obviamente quando são recém nascidos).
Acho que os filhos devem saber que os pais não os abandonam nunca, mas também que há vezes em que não estão disponíveis.
Acho que dar colo, acudir e estar presente é fundamental, mas acredito fortemente que a frustração é uma forma de amor tão importante como essa.
Acho que os filhos devem sentir que são um centro do mundo dos pais; mas que os pais também são o centro do mundo um do outro [e esta aqui às vezes é muito, muito difícil]
Tenho três slings; mas também gosto do carrinho.
Acho que devem estar com os pais ao fim do dia e brincar, mas que devem ir para a cama cedo e a horas certas durante a semana.
Sou toda a favor da criação de defesas naturais (não esterelizei praticamente nada) e acho ridículo que se tenha que lavar as mãos antes de mexer num bebé, mas acho que devemos vacinar as crianças.
Sempre no meio. Entre os que fazem o "treino do sono" e os que dormem com eles e os vestem a toda a hora. Entre os que adormecem todos os dias e em todos os sonos os bebés na mama e aqueles que os põem acordados na cama e os deixam chorar. Entre os que os levam para todo o lado (festivais de música inclusivé) até às horas que for, e os que não saem de casa até aos 6 meses.
Sempre no meio.
Agora, com o passar do tempo e outras coisas, torna-se mais fácil acreditar na minha cabeça. E achar que, regra geral, estamos a fazer ok. Des-subscrevi (isto existe?) os fóruns, as páginas, os blogs. Irrito-me menos quando vejo comentários de mães "perfeitas" ou que "dão tudo".
A luta agora não é para fora, é para dentro. A comparação é de mim para comigo; do ontem para o hoje. E os critérios podem evoluir. E de certa forma isto é bom. Sem moralismos, sem receitas taxativas, principalmente sem grandes certezas. É o meu caminho do meio.
De qualquer maneira, é bom encontrar quem pense como nós, principalmente se lhe reconhecemos competência:
"A beleza do berço consiste naquilo que ele diz implicitamente: é aqui que deves estar durante a noite. Quando as crianças estão numa cama de adulto ou dormem no chão, não existe limite verdadeiro para as suas deambulações. A cama de grades é um símbolo dos limites que são necessários para os proteger durante a noite."
"Quando no Hospital Pediátrico de Boston avaliamos uma criança sem qualquer conhecimento do seu passado, ficamos satisfeitos quando vemos que ela consegue autoconfortar-se chuchando no dedo ou agarrando o seu boneco preferido. Esta criança demonstrou a priori a sua força interior. Mostra-nos que tem sido acarinhada em casa. A capacidade de autoconforto é valorizada pelos pais que são carinhosos".
T.B.Brazelton
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