"Hoje vamos jantar os 2 pela primeira vez desde há 18 meses".
"Só agora?!" - o ar profundamente espantado a minha vizinha e mãe de um colega da S. abalou todas as minhas defesas. Acho que foi este ar, que me entrou cá por dentro directamente ao mais fundo, que me pôs a pensar nisto.
Perguntei a Lui-même: "Achas que eu exagero nisto?"
"Mas estás a fazer por ti ou por ela?"
"Por ela." - resposta pronta, peremptória, até verdadeira, para mim. Porque não a quero a sentir-se abandonada.
"Então acho que sim. Ela fica bem, está-se *defecando* para isso"
Mas isto ecoou em mim todo o resto do dia.
Por ela?
Talvez não. Talvez me esteja a aperceber agora - só agora - de que essa resposta é apenas meia verdade.
Por mim. Também por mim. Claro que também por mim.
Mas não por necessidade de controlo, não por eu sentir saudades avassaladoras, não por querer conscientemente estar sempre.
Acho que, "simplesmente", não me apercebi que me apaixonei. Sim, apaixonei-me por ela ainda antes de ela nascer. O enamoramento é intenso, mágico, privado, não admite mais ninguém. Ocupa a cabeça sempre. Está lá sempre. Não existimos quase sem o outro. O outro, um pouco à nossa imagem e semelhança. O outro, com quem podemos ter um universo à parte de todos os outros. O outro e tudo o que envolve o outro. E o outro com a incumbência de o devolver, de alguma forma.
A passagem do enamoramento ao amor é dura. Implica dar asas ao outro. Implica que o outro seja ele próprio, separado. Que nós sejamos nós próprios, separados. Que tenhamos a nossa vida exclusiva. Implica que possamos aceitar a desilusão, a frustração, e ainda assim permanecer. Visto de um certo ângulo, é libertador.
Tenho algum receio desta passagem, confesso. Muito, até. O que fica além do enamoramento sempre foi uma coisa que me incomodou. Aliás, acho que passo grande parte da minha vida a tentar recuperar a magia do enamoramento. Ou a conciliar o possível da realidade com essa efemeridade.
Mas quero muito poder ir sentindo encontros recorrentes no quotidiano. Com ela, e também com ele. Acho que ele é uma peça chave da equação.
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